
Saída de capital externo com cortes na Selic deve ser equilibrada com leilão do pré-sal e agenda de privatizações e concessões, segundo especialistas
Após atingir R$ 4,19 no mês passado — a maior cotação no ano —, o dólar voltou a cair nos últimos dias e fechou no início desta semana abaixo dos R$ 4, o que não era visto desde agosto.
O desempenho da moeda teve respaldo na aprovação da reforma da Previdência, que, embora já fosse esperada, renovou a expectativa dos investidores de que o governo conseguirá destravar sua agenda econômica, essencial para a retomada do crescimento.
Mesmo com o tombo recente, a cotação do dólar ainda está acima do patamar considerado justo por especialistas ouvidos pelo InfoMoney — entre R$ 3,50 e R$ 3,80.
A expectativa é que a moeda caminhe para essa faixa de preço no médio prazo (12 meses), mas a pressão de curto prazo ainda vai continuar.
Quando se fala em dólar/real/euro etc., na verdade, está se falando em taxa de câmbio. Mas o que é isso???
A taxa de câmbio é o valor da moeda de um país em relação ao valor da moeda de outro país. Por exemplo, digamos que 1 dólar (US$) seja capaz de comprar 3,50 reais (R$). A taxa de câmbio é então de R$ 3,50/US$ 1.
No Brasil, normalmente utilizamos a definição de câmbio como o preço da moeda estrangeira em relação à moeda nacional. Por exemplo, no caso da moeda americana, o câmbio é medido em real por dólar – nos diz quantos reais são necessários para comprar um dólar. Isso implica que, quando a taxa de câmbio sobe – por exemplo de 3,50 para 3,60 –, dizemos que há uma depreciação(leia-se desvalorização) do Real em relação ao Dólar (ou seja, são necessários mais quantidade da moeda brasileira para comprar a moeda americana). E quando a taxa de câmbio diminui, daí há uma apreciação(valorização) do real frente ao dólar.
Para ilustrar melhor esse conceito para vocês, compartilho um vídeo bem didático e animado do site Por Quê? Economês em bom português:
“O principal motivador dessa pressão é o fluxo [entrada e saída de dólares do país”, diz Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações.
“Havia muito capital estrangeiro especulativo no Brasil quando os juros eram altos. Hoje, com a Selic em seu menor patamar histórico, os gringos estão desfazendo suas posições por aqui porque já não vale mais a pena o risco.”
As saídas de dólares superaram as entradas em US$ 6,224 bilhões em outubro até o dia 18, segundo o Banco Central. No ano, o saldo do fluxo cambial é negativo em 19,195 bilhões.
Na visão de Mendonça de Barros, é esperado um ajuste no fluxo em novembro, após o leilão do pré-sal. “Boa parte dos pagamentos serão feitos por empresas estrangeiras, que vão trocar seus dólares por reais.”
Esses “novos dólares” são melhores para o país do que o capital especulativo que havia antes porque são menos voláteis.
“O processo de desalavancagem não é ruim. Os estrangeiros chegaram a deter 22% da dívida pública local. Hoje, detêm 12%”, diz Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e fundador da gestora de recursos Mauá Capital.
Ele avalia que a pressão no câmbio pela saída de capital estrangeiro é temporária e concorda que o leilão do pré-sal, assim como a agenda de privatizações e concessões, deve reequilibrar o fluxo cambial no médio prazo.
“A nossa visão é de que o câmbio fique mais próximo de R$ 3,50 do que acima de R$ 4 nos próximos 12 meses”, afirma.
Cenário externo
Enquanto a perspectiva interna é favorável à manutenção do dólar abaixo de R$ 4, o cenário externo também se mostra positivo ao câmbio.
Para Ricardo Kazan, gestor e sócio da Novus Capital, a recompra de títulos públicos pelo Federal Reserve, o banco central americano, colabora para o alívio na cotação da moeda.
“O Fed tem recomprado US$ 60 bilhões por mês em Treasuries. Não é um programa do tamanho do Quantitative Easing [adotado para conter os efeitos da crise de 2008], mas injeta liquidez no mercado e é o suficiente para ajudar o dólar a recuar contra outras moedas.”
A proximidade do fim do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos é outro fator positivo para o câmbio, na visão de José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos.
Para a reunião desta semana, é praticamente dado um novo corte na Fed Funds Rate de 0,25 ponto percentual, para um intervalo de 1,5% a 1,75% ao ano. “A partir disso, o Fomc deve indicar uma pausa no movimento [de corte de juros]”, avalia Faria Júnior.
Uma queda nos juros dos EUA reduz o rendimento dos títulos públicos daquele país, que são considerados o investimento mais seguro do mundo.
Isso faz com que os investidores estrangeiros busquem aplicações em mercados de maior risco, como o Brasil, com juros maiores — ainda que estejam em um patamar bem menor do que o visto anos atrás.
Fonte: INFOMONEY
Matéria original(editada) e fontes: https://www.infomoney.com.br/mercados/dolar-abaixo-de-r-4-e-alivio-temporario-ou-nova-realidade/ ; Link do video do Porquê?: https://porque.com.br/por-que-o-preco-do-dolar-sobe-e-desce